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Dia do Samba – 2 de Dezembro

dia do samba

Ao ler o título deste artigo, você pensou certamente que a gente vai falar do tempo da escravidão, dos direitos dos negros, de como esse ritmo fantástico foi perseguido pelas elites brasileiras etc. e, por ter passado por tudo isso, merece que haja um Dia do Samba.

Você pensou tudo isso, não pensou? Pois é! Pensou certo. Não tem como falar de samba e não mencionar a marginalização que ele sofreu há décadas. Aliás, avaliando mais profundamente, todos os percalços pelos quais os sambistas passaram fortaleceram a história do samba.

Por outro lado, o samba tem total penetração e atração nos mais diversos níveis da sociedade brasileira. Assim, gerou-se uma série de versões sobre sua origem. Como consequência, tornou-se também impossível garantir qual seria a história verdadeira do Dia do Samba.

Você sabe qual canção é considerada o primeiro samba do Brasil?

A ideia de criar um Dia do Samba

O dia do samba é celebrado no dia 2 de dezembro.
O dia do samba é celebrado no dia 2 de dezembro.

O dia é também conhecido como Dia Nacional do Samba. Os apreciadores e amantes desse ritmo cadenciado, envolvente e fantástico celebram sua existência em 02 de dezembro de todos os anos.

Aliás, o brasileiro deve mesmo comemorar o fato de o samba ter se adaptado perfeitamente na cultura do país. Afinal, juntamente com o futebol e as praias, o samba se tornou “embaixador imaterial do Brasil”. Assim, onde houver pessoas tocando ou cantando samba em qualquer localidade do Planeta, lá estará o nome do país sendo aclamado.

Certamente, não se trata de feriado ou ponto facultativo oficiais nem mesmo aparece como data comemorativa em qualquer dos estados ou municípios. Porém, o Dia do Samba é motivo de festa em muitas casas de shows, de manifestação nas redes sociais, de reflexão social em muitas conferências e encontros de discussão.

Apesar disso, o Dia do Samba foi aprovado por Lei no município do Rio de Janeiro há mais de cinco décadas – em 27 julho de 1964 por meio da Lei n° 554. Em verdade, nessa cidade, o título do dia é Dia Nacional do Samba.

O samba na Bahia

O estado da Bahia também dispunha de ideia de criação do Dia do Samba. Isso foi ainda antes do Rio de Janeiro, no ano anterior. Entretanto, os baianos pretendiam homenagear Ary Barroso já no primeiro ano de oficialização. Afinal, ele foi autor do maior clássico popular brasileiro, “Aquarela do Brasil”.

Isso acabou confundindo um pouco as coisas e, hoje, muitos baianos imaginam que 02 de dezembro seja data comemorativa do aniversário do autor.

Outros estados também elegeram o Dia do Samba como data comemorativa. Dessa maneira, ainda que não seja da oficial, é dia aclamado em todo o território nacional.

Desvendando confusão sobre o Dia do Samba

Ou, pelo menos, tentando desvendar. Boa parte das pessoas associam a data de criação da composição “Pelo Telefone” como o Dia do Samba. Afinal, essa tem sido considerada a primeira canção no estilo de puro samba. Foi composta em 1916 por Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, e Mauro de Almeida (veja mais sobre esse samba no capítulo final).

Ou seja: ela abriu caminho para que outros autores compusessem os sambas futuros. Mas, não, o Dia do Samba não existe por conta disso. Nem porque Ismael Silva e seus amigos do bairro Estácio do Rio criaram a agremiação carnavalesca “Deixa Falar” por volta de 1928. Ela foi a primeira escola de samba no verdadeiro sentido do termo, pois divulgava e ensinava samba.

Dizem alguns pesquisadores que Ary Barroso (mencionado acima) foi o motivo de 02 de dezembro ser o Dia do Samba. Teria sido ideia do vereador baiano Luis Monteiro da Costa. Barroso já era celebridade por conta da autoria de grandes canções.

Essa homenagem faria do compositor o gentil senhor do estado. Afinal, ele nunca tinha ido à Bahia quando esteve por lá nessa data. O parlamentar viu nesse fato grande oportunidade para celebrar a visita.

Pagode do Trem

Mas há outra versão ainda. Paulo Benjamim de Oliveira foi um músico mais conhecido como Paulo da Portela. Ele e seus amigos adoravam samba. Contudo, viviam todos nas décadas em que esse fantástico ritmo era perseguido (você tem mais informações logo abaixo). Precisavam de uma estratégia para curtir seu gosto.

Isso foi na década de 20. Então, Paulo da Portela resolveu convocar seus amigos. Todos se reuniram na Central do Brasil, conhecidíssima estação ferroviária do Rio que já foi até título de filme brasileiro premiado. Havia apenas uma condição: que todos portassem seus instrumentos.

Assim, viajavam até Oswaldo Cruz, bairro de origem de Paulo da Portela, tocando os mais belos sambas. Quando a polícia chegava – se e quando chegava -, bastava parar de tocar e conversar sobre qualquer coisa. Nesse caso, a sede do Pagode do Trem era qualquer vagão. Ali, cantavam e tomavam decisões.

Trem do Samba

Já o Rio deixa a festa por conta do Trem do Samba. O mineiro é povo conhecido por jamais perder o trem; por seu lado, o carioca também não, mas o trem que não perde é o trem do samba.

Os fluminenses e os baianos esperam pelo Carnaval por todo o ano. Os sambistas que já conhecem o Trem do Samba o aguardam hora a hora em todos os dias do ano até o Dia do Samba. Atualmente, eles ocupam muitos trens que saem lotados da Central do Brasil (você leu certo: trens, não vagões).

Os vagões levam mais de cinco mil sambistas a caminho de Oswaldo Cruz. Aliás, esse bairro deu início à ideia. Seus moradores sentiram necessidade de transformar a região, chamar a atenção da população para valorizar o local. Surgia, nesse momento, o movimento “Acorda, Oswaldo Cruz”.

Então, se reuniram na Central do Brasil no Dia do Samba. Isso foi em 1996 e nunca mais pararam.

Interessante: a ideia de criação do Trem do Samba nasceu pouco antes do anos 2000. Somente depois de muito tempo, seus idealizadores descobriram que a iniciativa já tinha sido realizada décadas e décadas antes (você leu sobre isso no tópico “Pagode do Trem” acima).

Comemoração do Dia do Samba

O Rio de Janeiro e a Bahia celebram bastante o dia do samba.
O Rio de Janeiro e a Bahia celebram bastante o dia do samba.

Como a gente comentou acima, duas cidades abraçaram o samba de maneira especial, Rio e Salvador. O Brasil inteiro celebra o dia, mas essas duas cidades promovem verdadeiras festas em nome do samba.

No Pelourinho, Salvador – BA, os organizadores levam shows fantásticos com sambistas renomados. Contudo, contemplam especialmente os compositores da região. É possível que nenhuma postura poderia homenagear mais lindamente o samba que essa, pois o samba sempre foi do povo e para o povo.

O músico Edil Pacheco é o responsável em Salvador por tudo isso. Assim, sambistas do estilo Paulinho da Viola, Elza Soares, Beth Carvalho e Dona Ivone Lara, dentre muitos outros, já estiveram presentes no evento.

Já no Rio, as festanças se estendem por dias. O pessoal do Trem do Samba que a gente destacou acima começa a se reunir (“se concentrar”, dizem os participantes) um dia antes. Claro, cerveja e salgadinhos não faltam. Nesse momento, o trem já está reservado, esperando pelos passageiros.

Aliás, a quantidade de trens reservados aumenta a cada ano; em 2018, foram doze ao todo. Cada um deles tem um grupo organizador; o restante dos passageiros é de gente amante de samba e de diversão.

A cada ano, os vagões recebem títulos. Já houve o Vagão da Velha Guarda da Portela, o Vagão da Tia Doca, o Vagão Sonho Real etc. O trem ruma a Oswaldo Cruz com apenas uma parada. E é estratégica: apanhar a velha guarda da Mangueira no meio do caminho.

A chegada do Trem do Samba em Oswaldo Cruz é quase apoteose de fim desfile. A diferença é que não é fim, mas começo. A partir de então, ninguém segura mais ninguém e o samba se torna oficialmente rei.

Quem não gosta de samba

O Dia do Samba pode não ser comemorado por todos os brasileiros. Mesmo porque nem todos sabem que há um dia específico para se celebrar o samba. Contudo, ninguém é indiferente a ele. Alguns podem até dizer que não gostam – aliás, uma parte pequena de metaleiros e rockeiros diz não apreciar -, mas não se pode dizer que não conhece.

Em algum momento da vida, todos já ouviram samba. Ou, então “… bom sujeito não é”, como diz Dorival Caymmi na canção (samba) “Samba da minha terra”. Isso é fato porque esse ritmo se espalhou rapidamente por todo o país.

Por todo o país, mas mais estranhada, intensa e fantasticamente nos estados do Rio e no da Bahia. O samba compõe o DNA dos fluminenses como um todo e dos cariocas de maneira especial; assim também acontece com os baianos, mas os soteropolitanos abraçaram o ritmo muito forte.

Várias versões, um só Dia do Samba

Todas as modalidades do samba são celebradas no dia do samba.
Todas as modalidades do samba são celebradas no dia do samba.

Nem todos aprovam, mas diversos sub-ritmos são considerados “samba”. Os sambistas clássicos, aqueles mais ortodoxos, mas ferrenhos, consideram apenas três estilos como sendo oriundos do samba real: samba-enredo, samba-canção, pagode de raiz.

Atualmente, existem variações do samba com outros estilos músicas. Entre eles, o que se destaca é o Samba Rock, o Samba enredo, o Samba pagode, o Samba carnavalesco, o Samba de gafieira e etc.

O primeiro samba

A Biblioteca Nacional registra a canção “Pelo Telefone” como histórica. Trata-se do primeiro samba do país. Estando, então, registrado na BN, certamente é oficial. Foi criada por Donga e Mauro de Almeida (a gente comentou acima) em 1916 no Rio.

A importância desse registro não é apenas para orgulhar os autores e seus amigos. É representação de um momento especial nas relações sociais do país com sua cultura e, desta, com as autoridades. Afinal, o samba foi visto como “profano” por censores e por religiosos da época.

Essa marginalização tinha base, em parte, nas questões racistas da época; em outra parte na hipocrisia. Dizia-se oficialmente que a intenção dos sambistas era escandalizar a sociedade com os movimentos “desconcertantes” dos corpos durante a dança.

Contudo, segundo análises de antropólogos e sociólogos, a afrodescendência era o motivo mais básico para a tentativa de ofuscar e proibir a manifestação do samba.

Por outro lado, a canção nasceu em roda de samba no famoso terreiro de candomblé Casa da Tia Ciata, frequentada por muitos músicos da época. Por si, esse fato já era alvo de depreciação do samba por parte de outras camadas da sociedade.

Versão do primeiro samba

Diz-se que a composição foi coletiva. Isso porque foi composta em roda de samba em que havia uma infinidade de grandes sambistas. Em verdade, foi mais uma espécie de “brincadeira de improvisação” em que cada um criava uma estrofe. Ou parodiava outras.

A própria sequência de temas dos versos parece meio solta, quase sem lógica. Isso demonstraria o caráter de improvisação. Eis, aliás, um dos fatores de importância dessa canção.

Assim, os versos iniciais (“O chefe da folia/ Pelo telefone / Mandou me avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar”) foram alterados para a forma que a gente mais conhece hoje (“O Chefe da Polícia / Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que na Carioca / Tem uma roleta/ Para se jogar”).

O próprio Donga teria explicado essa a versão acima. Segundo ele, alguns jornalistas do jornal A Noite foram os responsáveis a fim de criticar postura tolerante do governo em relação a cassinos. Eles próprios se incumbiram de instalar um jogo de roleta no Largo da Carioca a fim de destacar a “mão de luva” da polícia no trato da provável contravenção.

Original

Eis a letra que original, segundo Donga e Henrique Foréis Domingues, sambista famoso mais conhecido como Almirante.

O Chefe da Folia / Pelo telefone manda me avisar / Que com alegria /Não se questione para se brincar /Ai, ai, ai / É deixar mágoas pra trás, ó rapaz / Ai, ai, ai / Fica triste se és capaz e verás / Tomara que tu apanhe / Pra não tornar fazer isso / Tirar amores dos outros / Depois fazer teu feitiço.

Ai, se a rolinha, Sinhô, Sinhô / Se embaraçou, Sinhô, Sinhô / É que a avezinha, / Sinhô, Sinhô / Nunca sambou, Sinhô, Sinhô / Porque este samba, Sinhô, Sinhô / De arrepiar, Sinhô, Sinhô / Põe perna bamba, Sinhô, Sinhô / Mas faz gozar, Sinhô, Sinhô.

O “Peru” me disse / Se o “Morcego” visse / Não fazer tolice / Que eu então saísse / Dessa esquisitice / De disse-não-disse / Ah! Ah! Ah! / Aí está o canto ideal, triunfal / Ai, ai, ai / Viva o nosso Carnaval sem rival / Se quem tira o amor dos outros / Por Deus fosse castigado / O mundo estava vazio /E o inferno habitado.

Queres ou não, Sinhô, Sinhô / Vir pro cordão, Sinhô, Sinhô / É ser folião, Sinhô, Sinhô / De coração, Sinhô, Sinhô / Porque este samba, Sinhô, Sinhô /De arrepiar, Sinhô, Sinhô /Põe perna bamba, Sinhô, Sinhô /Mas faz gozar, Sinhô, Sinhô.

Quem for bom de gosto / Mostre-se disposto / Não procure encosto / Tenha o riso posto / Faça alegre o rosto / Nada de desgosto / Ai, ai, ai / Dança o samba / Com calor, meu amor / Ai, ai, ai / Pois quem dança /Não tem dor nem calor.

Então é isso. Você gosta de samba? Seja qual for sua resposta, exponha-a na área de comentários abaixo.